18 de ago de 2013

I Sarau no Quintal

O Quintal das Artes, escola de teatro instalada desde o início deste ano em Araraquara, promoveu no último sábado, 17 de agosto, o I Sarau no Quintal. O evento foi realizado em promissora parceria com a Produção Literária, sendo o primeiro de muitos outros que hão de vir.

Tim Fabril e Babi Camara, condutores das atividades do Quintal das Artes, optaram em sua proposta por fugir das homenagens aos cânones da Literatura — lugar-comum em saraus e em demais eventos literários Brasil afora — celebrando novos autores e estreantes. 

Durante os preparativos, Tim Fabril deu o seguinte depoimento: "O Sarau no Quintal dará a eles a oportunidade de mostrarem em pouco de sua identidade artística. Focaremos não apenas suas criações, mas apresentaremos à plateia quem são essas pessoas e suas referências pessoais. É importante incentivar novos talentos, pois eles são responsáveis por manter a cena artística da cidade aquecida — e há muita gente boa produzindo! A Literatura é plural e não se limita apenas ao tradicional formato dos livros. Ela dialoga diretamente com várias formas de Arte, como o teatro. A palavra e a criação textual possuem diversas formas de serem compartilhadas, e é essa busca que queremos incentivar."

Tim Fabril e Babi Camara
Na abertura do Sarau no Quintal, Tim evocou o modernismo lusitano citando a revista Orpheu, marco breve e contundente da história da Literatura Portuguesa, como referência para o esprit de corps que deveria guiar a noite.

Com o supracitado objetivo de promover tanto novos autores quanto novos atores, o I Sarau no Quintal contou com farto material produzido pelos alunos do Curso de Produção Literária. Seguindo a tradição do varal do sarau, já consagrada em saraus passados, os trabalhos produzidos neste ano foram colocados à disposição do público, que reagiu espontânea e animadamente à proposta. Trabalhos de anos anteriores, extraídos diretamente dos arquivos da Produção Literária, também ficaram ao alcance dos participantes — num baú ao lado do microfone. A propósito, muitos participantes trouxeram seus próprios trabalhos para divulgação: para tanto, o evento contou com o espaço microfone aberto.


Victor Perone
Nicolas Silva
Para além da mostra de trabalhos puramente literários, nosso colega Victor Perone trouxe seu ukulele e apresentou parte de seu eclético repertório. O poeta Nicolas Silva, formado da Produção Literária 2012, inclusive, apresentou mais de uma peça autoral declamada ao violão. Fábio Rodriguez, que conduz há 15 anos o projeto King Trip, versejando em sua linguagem direta e crua, declamou seus poemas na força da garganta, na raça, dispensando o microfone. Segue abaixo um excerto de sua lavra:


Acabei de chegar
Fábio Rodriguez


Fábio Rodriguez
Churrasco grego, dois Reais, suco à vontade,
O mesmo preço do pote de salada de frutas,
O sol ilumina as ruas,
A coleção de vinis é anunciada, comprei um disco por 40 Reais.

A estátua viva, vive como se estivesse morta,
Em nome da arte de ganhar centavos com a própria arte.
A Disneylândia aqui tem outro nome,
Uma vida por um gole, por um trago.

O falso prazer do sexo comprado,
O fast-food executivo, a bala perdida,
A marcha dos meninos perdidos,
Pregadores do bem e do mal abrem seus livros.

Comercial: 8,99, cinco opções.
Duas coxinhas e dois copos de sucos de laranja,
O pedido feito por um viajante sem dinheiro vira atração de populares
Não pagantes. 

A esperança do jornal amarelo tirar da lama os desempregados,
Um bilhete único para inúmeros destinos,
entre milhões, estou sozinho Acabei de chegar em São Paulo e
É assim que me sinto.


Assista abaixo a um trecho do conto "Somos nós", de nosso colega Renato Alves, lido pelo próprio autor:



Ficamos, tanto nós da Produção Literária quanto os muitos participantes que atenderam aos convites, na grande expectativa para o II Sarau no Quintal, que já está "no prelo". Nos veremos lá!



Leia a matéria anunciando o I Sarau no Quintal no portal K3.



6 de ago de 2013

Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Cândido Portinari, Retrato de Manuel Bandeira (1931)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira